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Descontentes habituais
(*) Diorindo Lopes Júnior

Desde que me entendo por gente, e isso faz tempo, convivo e busco compreender esta incompreensível Lei da Oferta e da Procura. Esforço em vão.

Confira e reflita, leitor.

Aumento na produtividade agrícola não é bom para os produtores, porque abaixa o preço do produto; queda na produtividade força um aumento natural nos preços, mas também dá prejuízo porque apenas os mais abonados podem comprar - e nem sempre compram ou não seriam abonados. Falta de chuva é uma calamidade e chuva demais também; ou não, para as duas opções. Se o dólar sobe, é bom por um lado e péssimo para outros. Quando faz frio, não importa o quanto, há quem comemore e há quem blasfeme. Quando faz calor ou temperaturas intermediárias, a mesma coisa, satisfação ou imprecações, variando a intensidade - não das temperaturas, mas dos interesses envolvidos.

(Na hora de depredar o meio-ambiente, ninguém pensa na reação da Natureza - que não consegue se defender, mas é bastante inclemente ao se vingar)

Já soube de produtores leiteiros despejando milhares de litros nas vias públicas alimentando bueiros, ceboleiros atirando-as, aos caixotes, em rios. Distribuição de frangos, ovos e galinhas em praças das cidades deixou de ser notícia há muito tempo, embora sempre ocorra uma ou outra confusão.

Se bem que, confusão mesmo, provocou um grupo de produtores de suínos/ovinos/caprinos ao abandonar seus animais no meio da rua - a imediata correria da rapaziada atrás dos bichos virou folclore na cidade. Menos danos causaram os produtores de pêssegos, pêras e maçãs, inconformados com os preços vergonhosos, ao doarem frutos para um asilo de idosos - embora a dentadura da maioria dos velhinhos não pudesse ou soubesse mais morder.

Gostaria de ver semelhante indignação (e a reação) de protesto em donos de bares e churrascarias de bacana ou em fabricantes de cervejas e cachaças. Não adiantaria nem chamar a polícia para organizar as filas - não haveria tempo, menos ainda filas, à exceção do pronto-socorro mais próximo.

(Para os não-acostumados, comer demais pode ser letal. Beber, nem tanto)

Lembrei-me de um casal que, curioso com a minha tietagem às belezas e tranqüilidade de Ilha Grande, resolveu conhecê-la. Ambos voltaram encantados, todos ficam, mas reclamando da falta de táxis - na Ilha circulam apenas pouco menos de vinte veículos, todos do serviço público.

Decididamente, é impossível agradar pessoas que acostumaram-se a ser descontentes. Que fizeram do corriqueiro ato de reclamar um hábito que, de tão repetido, incorporou-se à personalidade de todos.

Caso algum dia chova dinheiro, essa gente corre o risco de ter cofrinhos lotados de moedas de um dólar rachando suas cabeças.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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