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Os Desafios da Educação à Distância
O
debate sobre educação à distância
anda em alta atualmente. Mas a discussão vai além
do objetivo único de transpor a barreira do espaço/tempo.
Além
da questão espaço/tempo, o desafio agora é
utilizar as novas tecnologias para criar interfaces que estimulem
o aprendizado, permitindo o surgimento de uma nova estrutura
de educação, transmissão de informação
e relacionamento entre educador/educando.
A utilização
das novas tecnologias pelo educador deve ampliar e diversificar
a maneira de transmitir o conhecimento, estimulando o aprendizado
e servindo também como ferramenta para o educando na
busca pela informação.
Michael Dertouzos (1), diretor do Laboratório de Ciência
da Computação do MIT (Massachusetts Institute
of Technology), escreveu em seu livro "O Que Será"
(1997): "O novo mundo da informação rompe
com esse padrão de contribuições indiretas.
Ele está diretamente vinculado às questões
centrais da educação, na aquisição,
organização e transmissão de informações,
bem como na simulação de processos que representam
o conhecimento e na utilização de instrumentos
como e-mail e trabalho em grupo, para mediar as relações
entre alunos e professores, e dos alunos entre si. Sendo assim,
trata-se da primeira revolução socioeconômica
importante da história a oferecer tecnologias diretamente
ligadas ao processo de aprendizado.".
As primeiras
experiências em educação à distância
no Brasil surgiram algumas décadas atrás com
os cursos via correio. Apesar do sucesso que tiveram - por
isso resistem até hoje - não são bem
vistos por muitos; devido à pouca interatividade existente,
obrigando o educando a basear seus estudos apenas em infinitas
apostilas que chegam periodicamente pelo correio.
Posteriormente surgiram novos formatos utilizando a televisão
e também o rádio, mas nenhuma delas conseguiu
eliminar a monotonia da falta de interatividade.
A partir de 1995, com a chegada da Internet no Brasil, a educação
à distância começou a se desenvolver novamente,
e ano após ano surgiram novos formatos e aplicações,
acompanhando o desenvolvimento da própria internet.
Nos últimos anos vimos importantes instituições
de ensino americanas lançarem seus "cursos virtuais",
e o mesmo começa a ocorrer no Brasil.
Na área empresarial o "e-learning" já
é realidade em muitas empresas brasileiras. Empresas
como Itaú, Embratel, Natura e Hering, por exemplo,
já realizam treinamentos on-line através de
um sistema de "e-learning". Em uma pesquisa realizada
pela revista "Info" em março de 2002 (2),
45% das empresas que responderam afirmaram promover treinamentos
on-line.
Hoje a possibilidade de conexões mais rápidas
e permanentes viabilizou a utilização de softwares
para conferência on-line, uma ferramenta importante
para a educação à distância, pois
a possibilidade de visualizar a outra pessoa garante ao usuário
que nem todo o processo da educação à
distância é automatizado e que seu contato é
feito somente com "máquinas".
O estereótipo de uma "aula ideal", onde um
professor é posto à frente de uma sala com dezenas
de alunos deve acabar. Não é esta "sala
de aula" que irá acabar, mas sim a sua importância.
Ou seja, além desta sala, o educando terá outras
formas de entrar em contato com seu educador, ou pelo menos,
com o material que ele deixou à sua disposição,
e é aqui onde o fator tempo/espaço volta a aparecer.
O computador passa a ser um elemento importante de comunicação
com o educador que por sua vez poderá utilizá-lo
para complementar o material exposto em sala de aula.
Bill Gates (3), em seu livro "A Estrada do Futuro"
(1995), inicia seu capítulo sobre "educação"
da seguinte forma: "Os grandes educadores sempre souberam
que aprender não é algo que você faz apenas
na sala de aula ou sob a supervisão de professores.
Hoje, é por vezes difícil para quem quer satisfazer
sua curiosidade ou resolver suas dúvidas encontrar
a informação apropriada. A estrada dará
a todos nós acesso a informações aparentemente
ilimitadas, a qualquer momento e em qualquer lugar que queiramos.
É uma perspectiva animadora porque colocar essa tecnologia
a serviço da educação resultará
em benefício para toda a sociedade.".
Novos desafios
poderão ser lançados ao educando, sem a necessidade
da sua presença física, bem como seu desenvolvimento
e apresentação dos resultados obtidos. E nesse
ponto, a internet será uma importante ferramenta de
comunicação. Dentre as principais aplicações,
duas merecem destaque:
- WEB - O principal recurso onde o educador pode fazer uso
da multimídia e do hipertexto para transmitir a informação.
O educador poderá oferecer seu material didático
apenas para determinados usuários ou aberto a todo
o público. Podem ser aplicados testes virtuais, apresentar
vídeos ou realizar conversas on-line; em grupo ou individuais.
- Lista de Discussão
- Através do e-mail um grupo de educandos pode trocar
informações entre si, anexar documentos e links.
O educador poderá propor discussões em grupo,
onde cada educando pode interferir e dar sua opinião
no momento que melhor lhe convier, acabando com a necessidade
de reunir todo o grupo em um determinado local para a realização
de um debate.
Já estão
surgindo no mercado outras ferramentas específicas
para atender as necessidades do ensino à distância,
baseadas nas principais formas de comunicação
oferecidas pela internet (web, e-mail, chat, etc).
A crescente utilização das novas tecnologias
de comunicação proporciona uma modificação
na relação entre educador/educando. O estigma
de "detentor de toda a verdade" do educador dá
espaço a uma postura menos centralizadora. Ganha importância
a função do educador de servir como um intermediário
na busca do educando pelo conhecimento. Ele irá indicar
os caminhos, propor os desafios e ajudá-lo a alcançar
seu objetivo.
Em 1997, Pierre Lévy (4), escreveu o livro "Cibercultura"
onde diz: "... a principal função do professor
não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos,
que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios.
Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar
a aprendizagem e o pensamento. O professor torna-se um animador
da inteligência coletiva dos grupos que estão
a seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento
e na gestão das aprendizagens: o incitamento à
troca dos saberes, a mediação relacional e simbólica,
a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc.".
A velocidade com que surgem novos conhecimentos cresce a cada
dia. Não só na tecnologia ou na medicina, mas
em todas as áreas do conhecimento. É praticamente
impossível para a área da educação
acompanhar o ritmo frenético que temos hoje. O conteúdo
de muitos cursos necessita de constante atualização.
Neste contexto, o educador recebe a "missão"
de ensinar ao educando a distinguir uma informação
relevante em meio ao grande volume de conhecimento ao qual
está exposto. Saber assimilar a informação
certa, e no momento correto, saber descartá-la.
Apesar dos avanços que as novas tecnologias estão
proporcionando à educação, não
podemos esquecer que elas são somente ferramentas para
a transmissão da informação. Devemos
sempre lembrar que o centro das atenções é
o ser humano, o educando, pois é este quem vai assimilar
as novas informações adquiridas e transformá-las
em conhecimento tácito. Marc J. Rosemberg (5) faz um
comentário sobre o uso das novas tecnologias na arquitetura
do aprendizado em seu livro "e-Learning": "Com
o potencial do e-learning, pode ser fácil rejeitar
o treinamento tradicional em sala de aula como completamente
antiquado, sem valor. Embora o e-learning tenha muito com
que contribuir, ele não significa o final do aprendizado
em sala de aula. Na realidade, o aprendizado em sala de aula
desempenhará papel exclusivo dentro de uma arquitetura
de aprendizado, mas será um papel diferente do que
desempenhava no passado. Interações dos grupos,
soluções de problemas da empresa, avaliações
de desempenho, observação de peritos, criação
de cultura e trabalho em equipe são todos atributos
vitais de um sistema de aprendizado global que, em muitos
casos, ainda é mais adequado para experiências
em sala de aula.".
O Consultor Mundial de Performance para a Lucent Technologies,
Fernando O. Lima (6), no livro "A Sociedade Digital"
(2000) afirma: "Isto não significa, como os apologistas
do caos poderiam imaginar, que estaríamos profetizando
um processo educativo anárquico (no sentido pejorativo
e não-filosófico do termo) sem o mínimo
de estruturação orientadora. Ao contrário,
compreendemos que a prática pedagógica/andragógica
é, inevitavelmente, uma determinação
de parâmetros e de balizadores que auxiliam a caminhada
dos indivíduos dentro de leques de opções
cada vez mais amplos que a sociedade oferece.". Fernando
completa: "Só se pode obter uma mudança
na prática educativa libertando-se dos grilhões
que o conteúdo impõe à educação,
do tratamento massificado da educação e, principalmente,
da ditadura e do arcaísmo de uma postura educacional
tendo como base o magister dix que coloca nas mãos
dos professores/treinadores a responsabilidade pelo processo
comunicacional que faz parte desta relação.
Para realizar essa mudança de enfoque, é necessário
que se atue na mudança de mentalidade dos educadores/treinadores
e, concomitantemente, se desenvolva uma ferramenta didática
que possa vencer a contradição histórica
entre o conceito de educação de massa e atendimento
individual ao aluno.".
Apesar desta nova condição educacional ser iminente,
há ainda uma importante barreira a ser ultrapassada:
adequar os educadores a esta nova estrutura educacional. A
grande maioria dos educadores não está preparada
para esta nova realidade, a começar pelo fato que está
intrínseco nessa realidade: o conhecimento das novas
tecnologias, ou seja, a plena interação com
a informática.
Muitos dos educadores
não pertencem à geração da informática.
E seu conhecimento torna-se essencial na produção
de aulas interativas e que façam uso da multimídia.
Durante muitos anos o educador precisou apenas de um giz e
uma lousa para apresentar sua aula; hoje praticamente todos
já fazem uso de transparências e do retroprojetor.
Não está distante o dia em que projetores multimídia
e até mesmo o notebook serão equipamentos oferecidos
pelas instituições educacionais para que os
educadores possam apresentar suas aulas.
As instituições de ensino precisam incentivar
e estimular o educador a fazer uso das novas tecnologias.
Apesar da sua estrutura e material de aula terem obtido resultados
positivos durante anos, é importante lembrar que o
educando de hoje não é mais como o de antigamente.
(1) DERTOUZOUS, Michael. O Que Será. São Paulo:
Cia. Das Letras, 1a edição, 1997.
(2) "Na Era dos Pentabytes". Revista INFO, abril/2002.
Editora ABRIL.
(3) GATES, Bill. A Estrada Do Futuro.São Paulo: Ed.
Cia das Letras, 1a edição, 1995.
(4) LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed.
34, 1a edição, 1999.
(5) ROSENBERG, Marc J.. e-Learning. São Paulo: Ed.
Makron Books, 2002
(6) LIMA, Frederico O. A Sociedade Digital. Rio de Janeiro:
Qualitymark Ed., 2000.
Éric Eroi Messa (Com/99) é Professor da Faculdade
de Publicidade e Propaganda da FAAP e Sócio-Diretor
da High Performance - Marketing Interativo.
E-mail: eric.eroi@messa.com.br
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