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O velho curandeiro
(*) Diorindo Lopes Júnior

Essa foi minha mãe quem me contou.

Ainda menina, seu avô materno, Juca, reunia a netaiada num domingo de um dos meses sem a letra R (maio a agosto) e tascava em todo mundo um purgante bravo. Naquele tempo, lá se vão mais de sessenta anos, na única privada de fossa, comum na maioria das propriedades, essa única privada, fazia fila de meninas e meninos agoniados - quem não se segurava, aliviava-se atrás dos matinhos.

Lembro-me de minha exagerada avó falar que não havia folha de jornal que desse conta, nem quem pudesse contar os urubus que planavam sobre o quintal dias e dias, confundidos pelo fedor que exalava da terra.

Conta minha mãe que este meu bisavô nunca estudou medicina, mas tinha um livro e sabedoria para misturar umas ervas e especiarias que o ajudavam a ganhar um dinheirinho extra, curando mazelas de quem não podia pagar um doutor de verdade. Vinha gente de longe atrás de seus conhecimentos de cura e, palavras de minha mãe, o velho curou bastante.

A mulher de um amigo, médica homeopata, procurou este livro para pesquisar, estudar, mas o primo de minha mãe que ficou com ele, parece, quis ganhar uma grana em cima dos conhecimentos do avô. Considero este livro perdido, definitivamente.

Não acredito que contenha (ou contivesse) grandes ou secretas revelações de curandeirismo popular. Como todo livro, algumas centenas de cópias devem ter sido impressas e umas poucas unidades talvez ainda possam ser resgatadas em sebos ou porões de casas antigas. Lamento, sim, a perda do valor histórico contido nas páginas que, provavelmente, há décadas são o prato principal da comilança de traças.

Não falo nisso apenas, mas também, porque o Fantástico apresentou uma série de matérias a respeito da Homeopatia. O que me veio à cabeça são as sanguessugas estrangeiras que, fantasiadas de turistas e com a desculpa de visitar paisagens e culturas exóticas, infiltram-se como espiões em nossas florestas, subornam nossos índios (não mais com miçangas e espelhos, mas com dólares, o que apenas comprova a evoluída aculturação de nosso gentio), camuflam matérias-primas nas bagagens de volta, desenvolvem-nas industrialmente em seus países e as patenteiam como se suas fossem as descobertas e invenções.

Remédio é apenas um produto da expropriação e apropriação indevida. Fragrâncias, alimentos, madeiras nobres, insetos, animais, plantas, etc, nada escapa à sanha predadora dessa peste de gafanhotos. Pior: com a nossa conivência ignorante, os governos pouco se preocupam em mostrar ao povo o valor de cada raiz subtraída de nossa terra.

E a gente, depois de gastar os tubos em tribunais internacionais para provar que fomos espoliados por esses cupins, ainda recebemos esses delinqüentes safados de braços abertos - e pernas idem.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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