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O papel da crônica
(*) Diorindo Lopes Júnior
Uma leitora amiga disse-me ficado feliz ao conferir que utilizei uma de nossas conversas para dar suporte a uma crônica. Respondi-lhe que, se o poeta inspirador de Fernando Pessoa era um fingidor, o cronista é um ladrão de fatos e sentimentos alheios.
Meu primo Jorge e meu amigo Marquinhos berram pelos sórdidos botequins que freqüentam que eu sou o maior mentiroso que já conheceram. Os dois têm lá alguma dose de razão - se considerarmos que toda ficção é inventada, como são inventadas as mentiras que contam nas mesas desses mesmos bares sórdidos.
Dentro de um jornal, a função da crônica é oferecer ao leitor algum fôlego, para encarar a multiplicidade de reportagens densas, opiniões, editoriais, resenhas, fatos e fotos, que um jornal publica em sua faina.
Um jornalista veterano confidenciou-me que, mais que alegria, sentia-se honrado quando o secretário de redação lhe pedia, "Orlando, me escreva umas trinta linhas de mentiras da tua terra, preciso encher um espaço". Repórter iniciante, meu amigo vibrava.
- Eu me sentia um escritor!
Mas a crônica não existe apenas para preencher espaços vazios ou dar um fôlego ao leitor. Nisso, dar um fôlego, a crônica engana. Na verdade, sem que o leitor se dê conta, a crônica o conduz para uma reflexão intimista. Para um passeio dentro dele mesmo.
Portanto, leitor, não se iluda: a crônica não é exatamente inofensiva, ao contrário, é uma entidade bastante perigosa - convida a pensar.
Atitude que não agrada em nada a uns poderosos perigosos que andam soltos por aí...
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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