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Pés de couve
(*) Diorindo Lopes Júnior

- Esse menino saiu ao pai: não vale um pé de couve - quando não gostava de alguém e queria achincalhar esta pessoa, meu avô se valia do pé de couve.

Nunca entendi essa implicância. Ainda se fosse chuchu, que nem eu nem ele gostávamos, vá lá, mas logo a couve, que devorávamos do jeito que minha avó servisse...?!

Meu avô morreu e nunca fiquei sabendo a razão de tal figura de linguagem comparativa, mas até hoje a repito. Principalmente quando o assunto é futebol e nomes de técnicos e jogadores entram na roda e caem na boca dos debatedores. E continuo não sabendo explicar sua origem quando me perguntam, mas já vi outros repetindo-a - talvez não gostem de couve nem refogada numa feijoada, o que é lamentável.

Outro dia, fui ao casamento da filha de um bom amigo de infância bauruense e, qual não foi minha surpresa quando vejo, no altar, como pai do noivo, o mesmo filho que tinha saído ao pai e não valia um pé de couve, no dizer de meu avô - citação que fiz logo no comecinho deste escrito.

Fui assuntar com o meu amigo, pai da noiva, e descobri que meu avô estava enganado: ele e o pai, e agora o neto, valiam e valem muitos milhares de pés de couve. São produtores de legumes e hortaliças, abastecedores de vários supermercados da região.

- Acho que de fome meus netos nunca vão morrer... - disse-me meu amigo.

- Tomara que eles gostem bastante de couve - ri para dentro, sem mostrar meus dentes.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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