| Como compartilhar sonhos a cada geração
Por Francis Valdivia de Matos
Nas empresas de origem familiar, as aspirações pessoais do líder e sua visão da empresa se confundem. É o sonho que orienta a visão. Por tanto ao pensar no planejamento da sucessão, precisamos identificar quais são os sonhos de cada geração.
Os sonhos emergem dos valores e aspirações do fundador. Ele não tem o mesmo significado que as metas, estas são mais específicas e concretas. Os sonhos carregam uma forte conotação afetiva, são o componente subjetivo dentro do qual as pessoas inserem as metas.
Os sonhos dão origem às metas, ao tipo de vida e as realizações que a pessoa deseja alcançar. Na sua essência, dão sentido ao trabalho e se constituem no elemento de sustentação nos momentos de crise e dificuldades.
Os fundadores iniciam seus empreendimentos motivados pela necessidade de sobrevivência. É verdade que no começo o fundador não tem ainda clareza do seu sonho, mas à medida que os negócios crescem, os sonhos vão adquirindo uma forma mais definida.
Há fundadores que constroem impérios no desejo de que todos os seus filhos trabalhem nas empresas da família, que permaneçam juntos e unidos; que consigam ter uma unidade de pensamento, que compartilhem por igual os resultados do negócio. Aspiram também que haja muita harmonia e justiça e que colaborem para uma proteção mútua. A despeito desta visão, os filhos podem se sentir coagidos a preservar o sonho do pai que não é o próprio sonho, sendo assim privados da liberdade de tomar suas próprias decisões em relação ao futuro.
Já na geração de irmãos, será necessário criar uma outra configuração que nem sempre corresponde ao sonho do fundador; se o sonho dele era que os filhos distribuam as funções que antes ele acumulava, será necessário que esta nova geração desenvolva uma cultura de cooperação e um sonho de igualdade; muitas vezes distante da realidade.
Se os filhos foram educados num clima de competição, se alguns filhos foram vistos como recebendo mais privilégios do que outros; este sonho de igualdade pode ser uma utopia, nestes casos o sonho não resiste ao passar do tempo.
Temos observado em muitos casos que os filhos buscam imprimir um estilo e ritmos próprios, sustentados numa visão, sonhos e valores diferentes dos do fundador. A convivência forçada neste modelo pode desenvolver-se às custas do loteamento da empresa, onde cada área é gerida como se fosse uma unidade ou empresa independente.
O sonho de harmonia e justiça na família, onde todos os irmãos colaboram para assegurar sua proteção mútua, pode ser uma armadilha porque a nova geração poderá alimentar sonhos e desafios diferentes dos sonhos e desafios da geração anterior.
Todas estas considerações nos levam a sugerir que as famílias empresárias reflitam quais os sonhos concebidos pelos seus fundadores e quais os sonhos da nova geração. A transição será bem-sucedida na medida em que cada geração agregue valor e encontre alguns elos ou "pontos de convergência"; é importante que cada geração assuma o desafio de construir juntos estes pontos e que se estabeleça equilíbrio entre os sonhos individuais e sonhos coletivos.
Na prática cada geração pode ter diferentes visões, mas sem sonhos comuns e sem convergência, não será possível construir um sonho compartilhado coerente; o que significa criar uma visão coletiva do futuro.
Eis algumas sugestões que podem ajudar na construção dos sonhos compartilhados: provocar conversas entre pais e filhos desde cedo, debatendo os sonhos individuais e os sonhos coletivos; estimular a nova geração para delinear sua própria visão, valores e sonhos; permitir que a nova geração construa sua própria visão, consolide seus próprios sonhos.
O sucesso na transição entre gerações passa pela superação destes desafios.
Francis Valdivia de Matos
Consultora da Bernhoeft Consultoria Societária nas áreas de Familia e Nova Geração, Planejamento e Desenvolvimento de Carreira, Construção e Dinâmica de grupo para famílias empresárias, sucessores, cônjuges e herdeiros.
Vinte e cinco anos de experiência como executiva e consultora da Área de Recursos Humanos, tendo atuado em empresas de médio e grande porte, nas áreas de Desenvolvimento Interpessoal e de Equipes, Identificação de Potencial e Competências, Desenvolvimento de Atitudes e Habilidades para consolidação de Processos de Mudança, Desenvolvimento de Gestores e Gestão por Competências
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