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Comida sem sal
(*) Diorindo Lopes Júnior

Acordei cedo e com frio, no sábado. Lá fora, o sol brilhante prometia rachar mamona depois da metade do dia. Um espirro forte e um dolorido ataque de tosse me fizeram entrar debaixo dum banho quente, "é o outono dando as caras...", considerei.

Fui comprar jornais, aproveitei e me abasteci de xarope, aspirina e vitamina C. Na padaria, o rapaz me serviu um expresso com pão na chapa, barrado com manteiga - manjar matinal que engoli sem vontade.

Leio o jornal deitado no sofá. Naquela manhã, dormi antes do caderno de esportes. Acordei suando no meio da tarde e com outro ataque de tosse, tão forte que pareceu rasgar alguma coisa no lado esquerdo do peito. Fui obrigado a deitar e assim fiquei.

Foi como se dormisse em intervalos - para tossir e sentir a dor no lado esquerdo do peito, embaixo.

Devo ter delirado. Namoradas antigas vieram me visitar, um gol decisivo em que a bola bateu em mim e uma cesta no último segundo também. Notas boas e ruins na escola, minha bicicleta vermelha, o primeiro beijo, o casamento e os acasalamentos desfeitos, meu pai bronqueando com meus atrasos nas madrugadas e minha mãe insone enquanto eu não chegasse, o bauru noturno no Skinão, livros separados para reler...

Reuni forças até a cozinha. Duas colheres de xarope e mistura de aspirina com vitamina C. Espremi um limão e completei o copo com uma branquinha que, me juraram, viera do interior de Minas. Fui ver meus e-mails e liguei a tv. Nada interessante num e um filme do meu interesse noutro. Joguei um colchão no chão, vesti um moletom e peguei um cobertor pesado.

Repeti o copo de limão com a branquinha enquanto houve limão. Também o xarope e os comprimidos inúteis, os ataques de tosse cada vez mais intensos. Já era noite de domingo quando tomei uma sopa de saquinho e telefonei para um amigo médico. Ordenou-me que fosse encontrá-lo imediatamente num hospital próximo, onde dava plantão e sairia à meia-noite.

Peguei um táxi e uma cadeira de rodas no hospital.

Eu tinha pneumonia, estava desidratado, debilitado e ficaria de castigo dez dias, tempo suficiente para minha ressurreição - "sozinho, você não cuida nem de um jabuti manco...", disse-me o doutor. Poderia pedir livros na biblioteca e alugar uma tv a cabo por módicos R$ 20/dia, despesa-extra que não poderia ser incluída em meu plano de saúde.

Mas nada é ruim como comida sem sal de hospital.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).

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