|
Só mesmo com um chicote
(*) Diorindo Lopes Júnior
Imagem de criança triste, em qualquer parte do mundo, emociona. Lembro-me sempre de uma, capa de página inteira do paulistaníssimo Jornal da Tarde: um menino de uns seis ou sete anos, camisa da seleção canarinho, chorando após o desastre de 3x2 para a Itália de Paolo Rossi, em 82.
Na semana que passou, todos vocês devem ter visto no Jornal Nacional, um menino de três anos, agachado e triste, quebrando a casca de uma castanha de caju com um pedaço de cano. Na mesma reportagem, uma garotinha de uns sete anos fazia o mesmo serviço para pagar seus óculos, informou sua orgulhosa mamãe.
Em tempo: R$ 0,30 é o preço pago por um litro de castanha descascada, no interior pernambucano.
Quando a imagem se abriu, viu-se uma montanha de castanhas que, no meu tempo de menino, era munição suficiente para afugentar a turma da rua de cima por uns três anos, nas guerras de estilingue. Impossível não pensar na polpa, 90% do fruto, largada no chão para apodrecer ou servir de ração para o gado.
Fosse industrializada esta polpa, ou mesmo exportada para o Sul - sem a castanha, que para nós não vale nada e acaba no lixo - talvez este menino machucasse um braço caindo de uma árvore, mas não seria triste ou ficaria corcunda quebrando cascas de castanha de caju com um cano, em vez de brincar com este cano.
Para arrumar de vez algumas coisas neste meu país, talvez só mesmo com um chicote...
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).
|