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Cheiros de antigamente
(*) Diorindo Lopes Júnior
Quarta-feira de cinzas fui alimentar meu já bem-alimentado e avolumado abdômen com uma feijoada, num restaurante caseiro aqui perto. Gosto do cheiro desses lugares, embora quase nunca dos paladares de suas comidas.
A feijoada de minha avó tinha na preliminar um caldinho de feijão moído no muque, naqueles tempos pré-liquidificadores e outros hoje banais utensílios domésticos. Temperado com salsa, cebolinha e pimenta-do-reino branca, fazia cada pedaço de pão ser disputado a tapas por nós, meninos.
Ainda hoje persigo o cheiro de uma galinha caipira cozinhada devagarzinho no fogão a lenha, junto com batatas, cenouras e ervilhas. Outro cheiro é o de purê de mandioquinha (batata baroa) que ela fazia para os pequenos que ainda não sabiam mastigar, mas meu avô exigia uma boa parte e dividia seu quinhão conosco, já maiorzinhos. Até o leite com conhaque de alcatrão, para nos prevenir de doença de peito, eu me lembro do cheiro, embora já detestasse leite.
Também trago comigo o cheiro do café de minha mãe e do pãozinho ainda quente que meu pai buscava na padaria, com a manteiga quase derretendo. E do mexido de ovos com queijo e cebolas, hum...
Meu primo Jorge lembra-se de sua mãe amassando bananas, untando-as com mel e polvilhando canela, antes de assar por vinte minutos. Sempre queimávamos a língua, o cheiro não nos deixava esperar esfriar.
Por último, a canja de galinha com sobras. Nas noites frias, minha avó enchia um imenso caldeirão com tudo que tinha sobrado, mais os pedaços e miúdos da galinha, cabeça e pés incluídos, temperava com sua alma e deixava cozinhar umas duas ou três horas, sempre mexendo. Sobravam uns ossos e o bico.
Queria saber onde foram parar esses cheiros.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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