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Cemitério de máquinas de escrever
(*) Diorindo Lopes Júnior

Aprendi datilografia (lembra-se?, havia escolas) em 1968 e, aos dez anos, ganhei uma Remington semiportátil, fiel companheira de viagem por centenas de quilômetros geográficos e imaginários.

Vinte anos depois, a tecla da letra A soltou-se e o conserto demorou algumas semanas - é meio complicado escrever sem a tecla A -, período em que me encantei com as "facilidades" elétricas de uma Olivetti Práxis, emprestada de minha mulher. Só em 94, conheci e me entreguei de vez à praticidade do teclado de computador.

Outro dia, em Bauru, ia ao Correio e passei por uma região onde se concentram algumas empresas funerárias e seus velórios, já que a Morte não deixa de também ser um negócio onde muitos ganham a vida. Ironicamente, em uma portinha espremida e praticamente oculta, uma lojinha de conserto de máquinas de escrever.

Dezenas, empilhadas, esperavam a vez. Tive a impressão de um cemitério. Algumas pareciam aguardar seus proprietários ou improváveis compradores de 2ª mão. Sei que muitas pessoas ainda delas se utilizam para cometer seus escritos, mas, na hora, só lembrei de meu pai. Reconheci umas caixinhas com fita preta-vermelha, e meu pai precisa trocar a dele.

Estava com pressa e fiquei de passar na volta, acabei me distraindo com outra coisa, foi melhor. Enterros nunca me atraíram e, agora, passei a não me agradar também dos de máquinas de escrever.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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