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Causos que me contaram - 1
(*) Diorindo Lopes Júnior

Eu era muito novo para freqüentar o botequim do Vieira, um pé-sujo da pior qualidade e reputação, refúgio de tudo que não prestava naquele buraco da cidade, perto de minha rua, onde o acontecido teria se desenrolado. Então, não me atrevo a afiançar como verdadeiro este causo me contado pelo finado Zé Olavo, que morreria naturalmente de cirrose, não fosse antes furado de foice numa pífia discussão sobre um jogo de várzea, pelo não menos finado Silvino de Esmeralda, mulata formosa que não apenas lhe dera filhos como também um sobrenome.

Dentes esverdeados pelo fumo de corda, contou-me Zé Olavo que o sujeito mal arrumado e fedendo a gambá chegou à cidade saltando sem bagagens de um vagão de carga e não encontrou pouso em nenhum hotel, pensão, cortiço, pardieiro, antro ou alugam-se quartos nas proximidades da estação. De onde veio nunca se soube ao certo, pois de certo mesmo é que nem seu nome certo nunca ninguém soube.

Deu-se que foi subindo a rua a pé, até encontrar e entrar no bar do Vieira, quem sabe se por que fedor com fedor se persigam, e perguntou o preço de uma garrafa de cachaça da prateleira, com pouco mais da metade de aguardente no bojo. Pagou com umas células esmolambadas e sentou-se numa cadeira do lado de fora. Onde sacou algumas folhas já ressecando de um bolso e passou a mascar, uma a uma, gole a gole, no bico da garrafa - que nem muito limpa estava.

Zé Olavo estava lá, pitando sua palha de fumo de corda, apreciando a terceira amarelinha da tarde e acompanhando tudo, com cuidado e atenção devidos.

Um engraxate passou do outro lado da rua e o estranho o chamou. Contou outras notas amarfanhadas e, depois de um leve pestanejar e suspiro, deu o monte todo ao menino. Que nem contou o bolo.

- Quando os pés de um homem se juntam, pelo menos os sapatos precisam estar engraxados - falou.

Só o perceberam morto horas depois, quando um bêbado tropeçou na cadeira e o corpo trôpego de um e o cadáver frio do outro, juntos, desabaram no chão.

Foi assim que Zé Olavo me contou anos depois e dias antes de morrer quase degolado pela foice de Silvino de Esmeralda. Que um dia amanheceu morto de morte matada por tiro nas ventas e, não fosse o fato de ter finado a foice Zé Olavo e seus dentes esverdeados pelo fumo de corda, eu nem sei se deveria ter o nome lembrado na recontagem deste causo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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