Quem somos
Localize sua turma
Galeria de fotos
Cadastre-se
Associado Efetivo
Netmail
Seguro de vida
Porque hoje é sexta-feira
Recrutamento e seleção
Links interessantes
Fale conosco


Crise de caráter
(*) Diorindo Lopes Júnior

Moleque do antigo ginásio, eu me lembro de um professor citando o pensamento de um autor sobre a Constituição Brasileira que, em sua opinião, deveria resumir-se a apenas dois artigos: I - Todo brasileiro é obrigado a ter bom caráter. II - Revogam-se as disposições em contrário. Escapa-me agora o nome deste autor.

Os últimos dias têm sido marcados por um excesso de denúncias de fraudes e corrupções, liberação de verbas públicas em troca de votos e favores políticos, desmantelamento de quadrilhas organizadas em roubar sem o uso de armamentos, sem contar o trivial. Uma revista semanal chegou a estampar na capa que enfrentamos uma crise de corrupção.

Na verdade, enfrentamos há muito tempo uma crise de caráter - ou melhor, de falta de caráter.

Sob o argumento de "não serem bobos", pais não se constrangem em ensinar seus filhos a levar vantagem sobre amiguinhos que, como seus filhos, ainda mal aprenderam a falar, menos ainda a se defender. Amigo não titubeia em tungar amigo de décadas para satisfazer alguma obsessão pessoal, como ostentar uma casa de praia - mesmo que numa praia vagabunda. Pessoas letradas não hesitam em pagar caro por um gabarito que podem levá-las a um emprego público que nem precisa ser muito bem-remunerado; na cabeça dessas pessoas letradas, emprego público tem vantagens e oferece oportunidades outras, basta conhecer o esquema e as engrenagens. Mais e mais gente estuda ferozmente como burlar o Imposto de Renda e como utilizar energia elétrica, Internet, telefone, e instalar outros pontos de tv a cabo, sem pagar por isso.

Outras, ao saberem que seu filho destratou um professor, alegam personalidade do fedelho sem educação - que merecia mesmo umas boas palmadas para aprender a respeitar os mais velhos e, principalmente, os sacerdotes do Saber.

Amigos passam a pernas nos amigos na hora de rachar a conta no botequim e se vangloriam como mais espertos. Empresários reduzem gramas, centímetros, mililitros em seus produtos para ampliar os ganhos no varejo. Caixas enganam idosos no troco e gente de todas as idades embolsa descaradamente o dinheiro a mais que o caixa erroneamente lhe devolveu. Atleta engana o árbitro e o adversário numa jogada que resulta em gol e é incensado como esperto pela crônica esportiva, que aí vira cúmplice de jogo sujo.

Trabalhador que procura o dono de um dinheiro que encontrou é chamado de otário até por sua mulher. E de menininhos e menininhas que colocam por engano em suas mochilas lápis de cor, borrachas, apontadores e outros objetos de seus coleguinhas prefiro nem falar, para não ofender pais mais espertos.

O pior é que, pela via democrática, esta crise de falta de caráter não vai acabar. Ela já não se restringe mais à classe política, ganhou corpo e alastrou-se feito praga para toda a sociedade. Quem já agarrou sua teta, dela não vai largar. Quem ainda não, vai continuar querendo e tentando por todos os meios ilícitos.

Esses tempos decadentes, de caráter oco, levam-me a pensar no Império Romano, pouco antes da chegada dos bárbaros...

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

Antigos Alunos Faap © Copyright 1997-2012
Todos os direitos reservados.
Gerenciamento