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Aberta a caixa-preta
Em
1986, o economista Paul Michael Romer publicou um artigo no
Journal of Political Economy (Rendimentos crescentese crescimento
de longo prazo) que praticamente deu origem ao renascimento
da teoria do desenvolvimento que dormitava desde meados dos
anos 50. A capacidade produtiva da economia (isto é,
o máximo que se podia produzir em cada momento) dependia
de dois fatores: a mão-de-obra disponível e
o estoque de capital já construído. E, se dobrasse
a quantidade de capital e trabalho, a capacidade produtiva
também dobraria (rendimento constante).
Quando submetida a teoria ao teste da realidade, o que se
verificou é que uma larga parte do crescimento econômico
se recusava a ser explicada apenas pelo crescimento do trabalho
e do capital. A diferença foi atribuída a uma
"caixa-preta", um fator difuso, chamado "desenvolvimento
tecnológico". O fator fundamental para explicar
o mais importante problema econômico (o do desenvolvimento)
não era, propriamente, econômico, mas exógeno,
isto é, era externo em relação ao sistema
produtivo!
O novo modelo de Romer sugeria que a atividade econômica
se caracteriza por rendimentos crescentes em relação
à escala de produção, porque o retorno
dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e o retorno
dos investimentos em educação e treinamento
da mão-de-obra não são plenamente capturados
pelos agentes que os produziram. Eles se difundem para toda
a economia, aumentando assim a taxa de retorno global.
O modelo deu
origem a uma explosão de pesquisas em duas direções
para explicar o progresso técnico. Uma insistiu sobre
a acumulação do capital humano, isto é,
na educação, e chamou a atenção
para as desigualdades sociais. A outra insistiu em pesquisa
e desenvolvimento, que depende de arranjos institucionais.
Como é evidente, o processo educacional e o processo
de pesquisa e desenvolvimento não são independentes,
mas o segundo não é apenas uma extensão
natural do primeiro.
A nova teoria internaliza o "progresso tecnológico"
no próprio processo produtivo, separando o capital
e a mão-de-obra em duas categorias, uma que participa
da produção propriamente dita, e outra que se
destina à produção do novo conhecimento
e da nova tecnologia. Quanto maior a proporção
dos fatores destinada à segunda categoria, tanto maior
a geração de "progresso tecnológico"
e, portanto, de aumento da produtividade da mão-de-obra,
que é a definição de desenvolvimento.
A nova teoria
é mais otimista do que a antiga porque amplia o horizonte
do desenvolvimento econômico, mas é mais preocupante
porque não garante a "convergência"
dos países para o mesmo nível de desenvolvimento.
A conclusão fundamental da nova teoria do desenvolvimento
endógeno é que ele depende do capital humano,
quer dizer, da força de trabalho, da sua educação
e do conhecimento que ela acumulou (inclusive o "aprender
fazendo"), da pesquisa científica e da criação
de novas tecnologias.
No Brasil, temos avançado nesses campos, mas de maneira
ainda pouco satisfatória. Quando vemos os resultados
dos testes de conhecimento de nossos alunos em matemática
e física nas competições internacionais,
entendemos melhor nossas deficiências.
No campo da pesquisa e desenvolvimento, estamos progredindo
institucionalmente. A aprovação do Fundo Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,
pelo Senado, será fator importante no processo de financiamento
de P&D e de integração entre a universidade,
os institutos de pesquisa e as empresas privadas.
A experiência da Financiadora de Estudos e Projetos
(Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp) mostra que é
surpreendente o que existe de desenvolvimento tecnológico
atual e potencial nas "gavetas" daqueles organismos,
à espera de um suporte de financiamento ou de capitalistas
dispostos a correr algum risco. Um pouco de reflexão
sugere que deveríamos dar prioridade ao desenvolvimento
tecnológico para o setor exportador e para a substituição
competitiva das importações, em que a sua taxa
de retorno será maior do ponto de vista nacional. A
Petrobrás é o melhor exemplo disso.
O que desanima é ver o Executivo, para chantagear o
Congresso, escolher justamente o Ministério de Ciência
e Tecnologia para cortar-lhe 45% do orçamento! É
brincadeirinha, mas mostra como funciona o governo. Melhor
seria ter cortado, de fato, os 45% nas suas despesas de propaganda...
fonte: Carta Capital - http://www.terra.com.br/cartacapital/193/coluna.htm
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