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Canudinhos de papel
(*) Diorindo Lopes Júnior

Quando tínhamos oito ou nove anos, uma das diversões de menino era guerrear com canudinhos de papel. A gente arrancava as últimas páginas dos cadernos e os confeccionava, um a um. Para arremessá-los, com um forte sopro, usávamos os talos das folhas de pés de mamona ou mamão.

Eu inovei: em vez de talos de mamão ou mamona, cortei uns vinte centímetros de uma velha mangueira d'água, toda furada e ressecada, que não umedecia os canudinhos de papel - generoso que sempre fui, cortei um pedaço igual para meu primo Jorge e minha mãe, oportunista, cortou um metro e meio desta mesma mangueira para substituir uma vara de bambu, que usava regularmente em minhas pernas para me punir ou impor disciplina, mas essa já é uma outra história.

Quando chegou em minha casa para aquelas geladas férias de julho, meu primo Jorge emocionou-se tanto com o meu presente que foi falando que, uns duzentos metros antes do trem parar na estação, tinha visto uma caixa de maribondos enorme num galho dum pé de fruta-do-conde, pertinho da linha. Ficava no quintal duma casa, mas podíamos ir pelos fundos, atravessando o córrego e seguindo a linha do trem.

Uma colméia de maribondos parecia um excelente alvo para treinarmos nossa pontaria com os canudinhos de papel, ainda mais com um canudo de arremesso como aquele de borracha, que eu lhe dera.

Já devo ter contado - meu primo Jorge sempre foi meio lerdo nos movimentos e nas idéias, mas nunca conheci alguém tão ligeiro para correr dos medos, perigos e confusões. Nem tão habilidoso para enrolar canudinhos de papel, rigorosamente perfeitos e iguais.

Meninos de calças curtas, foi fácil atravessarmos o córrego com a água pelos joelhos - apesar do frio. O pé de fruta-do-conde ficava perto da janela da cozinha da casa, certamente de um ferroviário. O cacho de maribondos era realmente muito grande, faríamos um favor expulsando os bichos com nossos justiceiros canudinhos de papel. A mulher estava na cozinha.

Errei o primeiro tiro e o lerdo do meu primo Jorge mandou o dele janela adentro. Meu segundo foi melhor, pegou na parte de baixo, mas sem força suficiente para penetrar na caixa. Já o do meu primo Jorge pegou em cheio e entrou pela metade. Eu ainda não havia disparado o terceiro e a mulher começou a berrar lá dentro, desta vez acertei do lado do canudo do meu primo Jorge. Quem nem assoprou o seu.

A mulher saiu correndo pelo quintal, berrando e com uma toalha na cabeça. Sobre as nossas, um enxame chegou mais depressa que um raio.

Meu primo Jorge atravessou o córrego sem nem molhar os pés, chegou à estação uns dois minutos antes de mim e sem levar nenhuma ferroada. Eu me ferrei com duas, no pescoço - ainda tropecei no meio do córrego e me molhei inteiro na lama gelada.

Meu avô, que trabalhava no setor de cargas e a quem fomos pedir socorro e silêncio cúmplice, examinou atentamente meu canudo de borracha e foi testá-lo na plataforma. Disse que estava muito comprido, cortou uns três ou quatro centímetros, fez novo teste mirando a nuca de uns carregadores seus conhecidos e me orientou a falar para minha mãe que eu havia me sujado ajudando-o com uns sacos de amendoim.

Ela não acreditaria, mas não iria me brindar o lombo com seu metro e meio de mangueira sem antes lhe perguntar. E se assim não fosse, a bronca seria dele.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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