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Calças curtas
(*) Diorindo Lopes Júnior
Sempre que chega julho, eu me lembro de duas coisas: da asma que me aporrinha desde os doze anos e, antes, das calças curtas que os meninos eram obrigados a usar; calça comprida, só para ir à escola.
Até hoje tenho comigo que a asma me pegou pelas pernas geladas, os pulmões é que pagaram o pato.
Uma tarde, eu tinha uns nove anos, minha mãe me mandou levar alguma coisa para minha avó e, depois, ir para o setor de transporte de cargas da estação, onde trabalhava meu avô, esperar meu pai, que também trabalhava na estação, mas do outro lado.
Meu primo Jorge estava passando as férias em casa e foi comigo. Nós dois agasalhados da cintura para cima e meu primo Jorge com um boné que também era um tapa-ouvidos, no seu caso ineficaz, dado ao tamanho de suas orelhas - muita gente rói as unhas, meu primo Jorge mordiscava os próprios lóbulos.
Minha avó tinha assado uns biscoitos recheados com geléia de amora e, sabendo que eu não bebia leite, ofereceu-nos um chocolate quente, com um pingadão de conhaque de alcatrão, santo remédio para prevenir males do peito, mas impotente contra a atéia asma.
Passava um pouco das cinco, mas escurecia bastante depressa. Preferimos descer a ladeira de paralelepípedos a esperar o ônibus, atravessar a pinguela e caminhar junto aos trilhos até a estação. No meio da ladeira tinha uma mina d'água num paredão de pedra, a uns quarenta metros da rua. Eu e meu primo Jorge já tínhamos bebido água ali, mas sempre de dia. Com a noite chegando, aquele cenário impunha medo.
E deu mais medo ainda quando vimos uma luz de lampião se movimentando e logo apareceu outra e outra. Mais curiosos que valentes, nos esgueiramos entre as taboas para melhor olhar, quando uma voz cavernosa, vinda diretamente das profundezas das trevas, denunciou a presença de estranhos ao culto.
Nunca soubemos de que culto se tratava. Apanhados (de calças curtas) o medo falou mais alto e descemos a rua correndo, em direção à pinguela, mas...
Nem a cem metros dela, "onde vocês pensam que vão correndo desse jeito, seus abestados?", uma figura toda de preto, do chapéu às botas, plantou-se à nossa frente. Emudecemos e viramos estátuas, tal o pavor.
Era só um guarda noturno da ferrovia, saindo para o trabalho. Falou que a pinguela tinha caído com a última chuva e que teríamos de dar a volta até a ponte.
A rua estava bastante escura, só algumas varandas tinham as luzes acesas. Procurei o tronco de uma árvore para aliviar a bexiga num pouco de sombra. Meu primo Jorge ficou me esperando no meio da rua.
Perguntei-lhe se não ia se aliviar também, fez que não. Chorava baixinho e não me lembrei de, na correria, lhe ter sentado a mão nas orelhonas nenhuma vez.
- Eu não agüentei... - abriu o casaco e mostrou-me a calça curta molhada, o medo ainda quente lhe escorrendo pelas canelas.
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Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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