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Nas asas da borboleta
(*) Diorindo Lopes Júnior

Antes que alguém imagine que ando viajando em ácidos e pós outros, esclareço que borboleta era uma pequena locomotiva elétrica que puxava um ou dois vagões e fazia a ligação e transporte de pessoas entre distritos periféricos de minha cidade.

Algo parecido ao que hoje cabe aos ônibus intermunicipais - mas sem o mesmo charme, acrescento.

Seguia no traçado da ferrovia - como ainda hoje em São Paulo e Rio -, que eram os dois únicos rumos para onde os municípios se expandiam. E as periferias iam se formando, até chegarem ao status de bairros, parques ou jardins. Vila, não. Ninguém gostava, dava impressão de marginalidade, embora a marginalidade habitasse todo canto, a começar pelo Centro, na praça da estação, e os bairros tidos como nobres.

Como os meninos da capital reinavam nos antigos bondes, para nós, caipiras, burlar o conferente de bilhetes e viajar de graça era um feroz e permanente desafio. Mesmo que dependurado numa janela ou num estribo, equilibrando-se no teto do vagão. Risco de morte em caso de queda, mesmo à baixa velocidade da borboleta, uns trinta ou quarenta por hora.

Se muito, soube de uma meia dúzia de braços e pernas quebrados. Se muito.

Passava de hora em hora e, quando íamos jogar bola em Triagem ou na Perroca, se estivéssemos ganhando, quando a locomotiva apitava na curva, sabíamos que precisávamos chutar a bola deles para o mato (ou dentro do rio) e correr. Tínhamos exatos seis minutos para nos encarrapitarmos na rabeira da borboleta para não sermos espancados pelos derrotados.

Lembrei-me da borboleta ouvindo minha mãe contar uma lembrança a meu primo Jorge. E fiquei pensando nos motivos que levam um país, que se fez economicamente ativo através das ferrovias, transportando cargas e pessoas, a abandonar essas mesmas pessoas quando retoma sua vocação para o crescimento, apelando para a inquestionável competência dos trilhos.

Não me considerei qualificado para qualquer resposta. Quem sabe alguma autoridade possa.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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