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Bolero a luz de velas
(*) Diorindo Lopes Júnior
Eu devia ter uns onze ou doze anos e eles moravam perto do meu primo Jorge, um medroso que jurava que eles tinham parte com o diabo. 'Eles' eram um casal já de idade, não para serem avós, mas com tempo de vida suficiente para não pensarem mais em filhos.
¾ De noite, tocam umas músicas esquisitas e acendem velas, todo mundo lá tem medo - dizia meu primo Jorge, tremendo feito vara verde.
'Todo mundo ' era a turminha de bunda-mole que ele andava. Eu já tinha atravessado, de noite, várias vezes o cemitério rodando aro no escuro e ouvia as histórias de assombração de meu avô, não tinha medo de algo que não sabia nem o que era. Falei com meus pais e fui dormir uma sexta-feira na casa de meus tios.
A música começou por volta das oito da noite e era mesmo esquisita - eu ainda não conhecia o jazz.
Pulei o muro. Era um sobrado velho, de jardim muito mal-cuidado. Árvores enormes escondiam o brilho da lua e meu medo maior era enfiar o pé num prego enferrujado, não queria nenhum doutor amputando meu pé gangrenado ou ter de inventar alguma explicação para minha mãe - que costumava me sentar a mão antes de começar a conversar para saber.
Pelo pouco que me contaram, os dois levantavam bem cedo e pegavam um ônibus para o centro da cidade. Voltavam pouco antes do sol se esconder e, depois, ninguém sabia o que acontecia lá dentro.
¾ Fazem feitiços com sapos e escorpiões - contou-me um dos amiguinhos de meu primo Jorge.
A propósito, meu primo Jorge e sua turminha ficaram escondidos do outro lado da rua e eu cheguei a uma janela mal-iluminada. Tinha de estar: lá dentro, o casal terminava de jantar à luz de castiçais.
Depois, o homem levantou-se e botou um outro disco para tocar - anos depois, adulto, eu reconheci o bolero. Começaram a dançar e a trocar uns beijos e carícias que, escondido, eu já tinha visto meus pais fazerem - pensando que eu estava dormindo.
Achei que já tinha visto demais e me mandei.
¾ O que você viu? O que você viu? - meu primo Jorge, ansioso além do normal.
¾ Nada. Acho que são muito pobres e não têm dinheiro nem para pagar a conta de luz. Por isso usam velas para jantar - menti.
¾ E a música? - um deslumbradinho quis saber.
¾ Música?! Que música? Não tinha música nenhuma, onde vocês escutaram música? Vão chupar um prego, seus...!
Sustentei uma dose de mistério. 'Amarelões ' como eram, medrosos de tudo que não sabiam, não se atreveriam a pular o muro para bisbilhotar e, pelo menos por algum tempo, deixariam o casal namorar em paz.
Eu estava adolescendo e os hormônios em permanente ebulição me faziam um tanto sentimental.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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