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Boas práticas na educação de herdeiros
Por Ana Rita Bittencourt Schlatter

Com as exigências do mundo atual as famílias modernas vêm sofrendo mudanças em todos os sentidos. O modelo papai sai para trabalhar e mamãe cuida dos filhos já não é o padrão da composição familiar. "Esta é a minha mãe por parte de pai..." ou "o nome do meu pai é vovô" são exemplos citados recentemente pela diretora da escola de minhas filhas, mencionando a fala de coleguinhas, para ilustrar o quão cotidianas já são essas "novas" configurações familiares. Saber qual o limite certo; ser muito repressor ou permissivo; dizer não na medida certa; ser ausente ou controlador são dilemas pelos quais os pais estão constantemente expostos.

Mas para pais que são empreendedores e empresários, adicionam-se desafios. Cabe a eles despertar nos filhos o compromisso de cuidar de seu patrimônio, agregar valor para as próximas gerações e tratar da sucessão e continuidade de forma responsável. Algumas boas práticas para esta missão:

1. Prepará-los para serem sócios: o fundador de uma empresa é o dono, mas já na 2ªG estamos falando de um grupo de sócios. E ser dono é muito diferente de ser sócio. Herdeiros devem ser educados para cooperar, ceder, aceitar as diferenças, trabalhar em equipe. É importante que o empreendedor compreenda que o seu modelo não poderá ser reproduzido na próxima geração, mas cabe a ele sensibilizar seus filhos sobre as responsabilidades envolvidas no fato de pertencerem a uma família empresária. Isso significa que muito mais do que ser preparado para se tornar presidente, os herdeiros devem aprender a se articular societariamente com seus irmãos ou primos.

2. Seguir seu projeto de vida: um dos grandes desafios na educação de herdeiros é torná-los indivíduos fortes, conscientes de suas habilidades e perseguidores de seus sonhos. Quem já não ouviu falar do ditado "na sombra do carvalho não nasce sequer grama"? A força, o sucesso e o brilho de um fundador podem trazer muita inspiração, mas também podem ofuscar ou inibir os que estão à sua volta. É fundamental que todos acreditem que o modelo de sucesso do pai pode não se aplicar aos filhos, e que cada um pode ser incentivado a encontrar seu próprio caminho.

3. Serem desafiados: fazer com que os herdeiros não se acomodem na perspectiva de recursos infinitos. Como estimular aquele "bichinho" do quero mais, quero melhor, não estou totalmente satisfeito? Neste caso, é lidar com o dilema de "poder dar tudo para meus filhos", mas também estimular o interesse de "lutar pelo que querem". Focar no desenvolvimento de pessoas motivadas, determinadas, com conquistas próprias e não estagnadas em sua própria situação de conforto.

4. Lidar com dinheiro: muitas vezes os pais, inconscientemente, mantém seus filhos dependentes. Quando pensamos em famílias abastadas, a forma mais comum é por meio de mesadas, carros, cartões de crédito sem limite. Muitos jovens simplesmente não sabem o valor do dinheiro, são reféns das facilidades e do conforto. É fundamental que sejam estabelecidos limites claros, que os herdeiros desenvolvam a noção de recursos finitos e tenham que fazer escolhas e encontrar suas próprias alternativas na busca do que desejam. Como provável conseqüência, surgirão indivíduos mais independentes e seguros quanto às suas capacidades individuais de sobrevivência e realização.

5. Criar maturidade emocional: o que observamos no trabalho com famílias empresárias é que, muitas vezes, os filhos não são educados para lidar com a frustração. São indivíduos que têm facilidades materiais e são pouco expostos às barreiras do "não". Aprender a lidar com a frustração significa elaborar o desejo e direcioná-lo. Aqui se encontra o foco, o ponto de partida que define o surgimento de um indivíduo bem organizado e estruturado emocionalmente, capaz de negociar, lidar com conflitos e ceder na parceria com seus irmãos ou primos.

Na sociedade atual, a educação dos filhos não está mais delegada às mulheres. Pais e mães compartilham desta responsabilidade em condição de igualdade. Certamente, porém, o desafio na educação dos filhos vai muito além de boas práticas: esbarra numa linha sutil que é a doação, generosidade, abdicação, sensibilidade. Ainda assim, vale o desafio de buscar, incansavelmente, a mágica de formar cidadãos conscientes, indivíduos integrados e sócios responsáveis. Eles serão a base fértil para a sucessão e continuidade.

* Ana Rita Bittencourt Schlatter. Consultora da Bernhoeft. Quatorze anos de experiência como consultora e executiva de grandes empresas familiares e nacionais. Mestre em ADM pela USP/FEA, Pós-Graduada pelo Instituto Trevisan, Extensão em Formação de Gestores pela Fundação Dom Cabral e Graduada em ADM pela ESPM. Professora da FAAP na disciplina Empresa Familiar e Sucessão.

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