A bicicleta alaranjada
(*) Diorindo Lopes Júnior
Soube que meu primo Jorge ganhara uma bicicleta Olé 70, como a minha, e quis vê-la. Infernizei meu pai até ele me botar num trem para Pirajuí, coisa que, ao cabo de quatro dias, numa tarde de uma 6ª feira, ele fez de bom grado e com algum alívio - não sem antes orientar o conferente das passagens a só me deixar sair do vagão quando minha tia Iracema se identificasse.
Melhor: deu-me um trocado para um sanduíche de mortadela, manjar que o restaurante da ferrovia oferecia e só provei melhor no Mercado Municipal, aqui em São Paulo. Falam-me que, hoje, há muitos imitadores.
Meu primo Jorge não me pareceu muito feliz em me ver, entretido em lubrificar sua magrelinha alaranjada - a minha, vermelha, era muito mais bonita.
Na manhã de sábado, fez-me subir na garupa e me levou para o outro lado da linha de trem. Onde ia ter uma espécie de corrida. Fui, morrendo de medo. Meu primo Jorge nunca foi capaz de pilotar um carrinho de supermercado, quanto mais uma bicicleta.
Mal chegamos - ilesos, ufa! - avaliei o terreno: morro com uma inclinação de uns 30º, terreno gramado (teria buracos?), pequenas árvores e arbustos no trajeto de uns 150 metros - previ uns bons tombos.
Alguns protozoários se estranharam logo na largada e por ali ficaram. Algumas amebas capotaram e nem se levantaram. Surpreendentemente, meu primo Jorge, um lerdo de nascença, cruzou a linha de chegada em segundo lugar. Perdeu por apenas meia roda!
É bem verdade que atropelou o fiscal da bandeira quadriculada, atravessou a tela de proteção e se esborrachou numa pilha de caixas de abacaxi, à espera do embarque - mas isso é uma outra história.
Meu tio Zé Roedas ficou tão empolgado com a medalhinha de prata fajuta de seu rebento que, no caminho de volta, comprou uma lata de sorvete, um garrafão de vinho e um quarto de leitoa para o almoço de domingo - do qual não provei nada.
Logo depois da missa, meu primo Jorge desafiou-me para repetir sua performance, topei - fugir de um lerdo como ele, eu?!. Mas, já na subida, empurrando sua bicicleta alaranjada, vi que não iria dar. Lá do alto, a encosta pareceu-me inclinada muito mais que 30º .
Foi manquitolando a perna direita, cotovelos e joelhos tingidos de mercúrio, gaze, esparadrapo e seis pontos no queixo que embarquei no trem de volta para casa. E, maldita bicicleta alaranjada sem freios!, ninguém me deu nem uns miseráveis trocados para um já envelhecido sanduíche frio de mortadela.
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).