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Barulhos da madrugada
(*) Diorindo Lopes Júnior
Sou uma pessoa notívaga, raramente vou dormir antes das duas - para me levantar as seis e não perder os telejornais da manhã. Ainda assim, a insônia me ataca vez por outra. Deixo a cama e me deito no sofá, onde a claridade me acordará, caso o sono me vença.
É quando me concentro nos barulhos.
Moro numa avenida movimentada de São Paulo e me espanta seu quase absoluto silêncio nessas horas tardias. Às vezes, um ronco de ônibus vagaroso; outras, um idiota com escapamento aberto. Raramente, uma freada ou vozes bêbadas. Nunca havia notado, minha geladeira estala regularmente, deve ter algum defeito. Creio que meus vizinhos não têm geladeiras, acho que nunca ouvi uma porta batendo; uma vez, alguém quebrou um copo, talvez um cinzeiro.
O morador do lado mexe com comércio exterior, vara algumas madrugadas imprimindo relatórios e fumando, reconheço o som de uma impressora como a um apito de trem, e seu isqueiro tem barulho parecido ao meu; sei que sua mulher ronca alto, uma noite eu o escutei pedindo a ela que fosse dormir no quarto.
Alguém chega sempre um pouco depois das quatro, o barulho da porta da garagem, ploc, é inconfundível e depois, também, o do elevador, que range como se transportasse toneladas. Comum é ruído de portas e janelas, passos no corredor ouvi poucas vezes. Como também de telefone e, muito menos, do interfone.
Vizinhos têm cachorros e famílias crianças pequenas, mas donos e pais devem dopá-los para dormir, já que latidos, berros e choros, eu escuto o dia inteiro.
Vivo aqui tem muitos anos e apenas duas vezes ouvi troca de tiros. Música, só quando cantarolo baixinho. Quando o vento sopra forte, minhas janelas rangem. Ronco de avião a jato eu ouço regularmente, distante pela altitude, mas muito pouco ambulâncias e viaturas policiais - devem escolher outros corredores em suas ações nas madrugadas.
Ouço o barulho de água correndo pelos canos e sei que poucos vizinhos dos andares superiores usam o banheiro na madrugada, é raro escutar o som de descargas - ou usam e não acionam a válvula.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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