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Assoviando uma antiga canção
(*) Diorindo Lopes Júnior
Nunca aprendi a tocar piano, violão, andar de patins, falar inglês, dar nó sofisticado em gravata, dirigir direito, jogar tênis ou golfe, menos ainda a assoviar. E isso me faz uma falta feroz. Assoviar.
Ainda no primário, uma garota do segundo ano aglutinava os irmãos mais velhos apenas juntando dois dedos entre a língua e o céu da boca. Excepcional arma de defesa. Menos mal, nunca fui chamado de troglodita nojento por nenhuma menina, já que jamais fui capaz de um ingênuo 'fiufiu ' na saída da escola.
Também nunca fui capaz de assoviar uma antiga canção durante a volta para casa de madrugada, lembrando a cada passo o beijo maravilhoso que tinha trocado minutos antes.
Penso que isso, não saber assoviar uma antiga canção, de alguma maneira deve ter influenciado o cidadão que me tornei.
Meu amigo Marquinhos, cujos ralos cabelos brancos ficam rosados quando o sangue lhe sobe à cabeça, ainda menino de calças curtas assoviava forte para chamar seu cachorro, um vira-lata pulguento e esperto como o dono. Meu pai fazia o mesmo quando eu desaparecia da frente de casa - parou no dia em que protestei: eu levava Júnior depois de seu nome, não latia e nem abanava o rabo.
Nunca assoviei nem quando me contaram de mortos que não deveriam. Menos ainda quando soube de mazelas praticadas e às quais não fui convidado a participar, eu sequer pensei em assoviar. Não sabia.
Ainda não sei. E, a julgar pelo andar da carruagem desses novos e estranhos tempos, é algo que, definitivamente, não quero mais saber de aprender.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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