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Internet: aprendendo a ensinar
Depois de estourarem
tantas bolhas de euforia na internet, um novo segmento é
agora alvo das apostas. O ensino pela rede de computadores
- ou e-learning, para os mais novidadeiros - é o novo
filão que mobiliza internautas, webmasters, criadores
de softwares e investidores. Grifes como Xerox, Embratel,
Universidade de Harvard e Universidade de São Paulo
entraram na onda dos cursos de aperfeiçoamento profissional
e de extensão. Novos recursos, integração
de áudio, vídeo e texto, professores que atendem
on-line, fóruns e chats com especialistas são
alguns dos recursos que passam a ser usados de uma forma nunca
vista com o objetivo de fazer com que o aluno aprenda. Uma
pesquisa realizada pela empresa MBG, do ex-ministro das Comunicações
Luiz Carlos Mendonça de Barros, revela que já
existem mais de 30 mil cursos on-line somente no Brasil. Os
professores assistem a todo esse movimento com um misto de
perplexidade e fascinação, como pude observar
no VIII Congresso Internacional de Educação
a Distância, realizado em Brasília há
duas semanas. Perplexos, porque temem ficar marginalizados
se não conseguirem dominar essas novas tecnologias.
Fascinados, porque muitos acreditam que o ensino pela internet
vai resolver os problemas de aprendizado no País.
É tudo tão
rápido e avassalador - ao estilo dos "fenômenos"
anteriores da web - que se torna recomendável uma pausa
para respirar, refletir e jogar no caminho algumas perguntas
incômodas. A primeira: é realmente possível
aprender pela internet? Os introdutores do e-learning - mais
um nomezinho exótico - e alguns alunos dizem que sim.
Mas os cursos são tão novos que não existem
parâmetros confiáveis para medir a qualidade
desse tipo de ensino. Por falar em qualidade, outra pergunta:
como ensinar direito, se ainda não foi criado um modelo
pedagógico voltado para web? Sem isso, esses cursos
correm o risco de servir apenas para informação
e não para formação - essa opinião
é a de especialistas como o professor Paulo Blikstein,
mestrando do Massachussets Institute of Technology, ou o professor
argentino Daniel Luzzi, assessor da OEA e do BID.
Diante dessas dúvidas,
é preciso que os mestres adotem uma postura bastante
questionadora em relação ao ensino pela internet.
Numa das salas em que se desenrolavam os debates paralelos
ao auditório principal do Congresso Internacional de
Ensino a Distancia, ouvi a professora de uma universidade
mineira expor com entusiasmo a experiência de sua instituição.
Tudo parecia muito eficiente, revolucionário e a mestra
chegou ao ápice de sua exposição com
a seguinte frase: "Com nossos cursos on line conseguimos
uma troca melhor do que na sala de aula", disse ela.
Fiquei pensando como seria possível uma coisa dessas.
De que forma uma professora conseguiria um relacionamento
melhor com seus alunos através do computador do que
pessoalmente? É claro que uma conclusão dessas
é resultado de uma supervalorização da
internet, mais uma mistificação que deve ser
combatida desde o nascedouro. O professor de carne e osso
sempre será mais eficiente que qualquer computador
ou tv. Pelo menos até que se prove o contrário,
essas mídias são importantes para apoiar o ensino
presencial e não para substituí-lo.
Aos alunos, aconselha-se
também que não criem expectativas fenomenais
quanto ao ensino pela internet. Um complemento, um acréscimo,
um aperfeiçoamento - assim deve ser encarado esse tipo
de aprendizado. Colocado em seu devido lugar, sem promessas
fenomenais ou ilusõs desvairadas, o tal e-learning
terá mais chance de dar certo e se tornar respeitado.
Urgente, nesse momento em que esses cursos são novidade
no mundo todo, é a discussão que leve a uma
pedagogia própria para esse veículo. Mais que
discussão: estudos, pesquisas, medições.
Assim, quem sabe, esse recurso possa ser uma efetiva ajuda
na enorme tarefa de disseminar a educação entre
os brasileiros, e não apenas um modismo que vai gerar
diplomas rápidos e sem credibilidade. Afinal, ninguém
quer que o ensino pela web se transforme em mais uma bolha,
como tantas outras que já estouraram nessa trajetória
da internet.
Francisco Alves
Filho , editor-assistente da sucursal de ISTOÉ no Rio
de Janeiro
http://www.terra.com.br/istoe/artigos/internet_aprendendo.htm
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