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O anel que veio do Além
(*) Diorindo Lopes Júnior

- Essa eu garanto verdade verdadeira: foi comigo, aconteceu comigo! - meu avô exigiu atenção. Estava bastante doente. Contrariá-lo nem pensar.

Já falei nem sei quantas vezes: o mentiroso do meu avô adorava contar causos de assombração. Uma gente que já deveria estar vivendo no mundo dos mortos, mas insistia em ficar por aqui, infernizado o inferno de vida que era viver na terra dos pobres viventes.

Eu já tinha doze anos e não me urinava mais de medo como ainda meu primo Jorge, mas nesta noite meu primo Jorge não estava, portanto, nesta noite, não molhou nenhuma cama na casa de minha avó.

Esta história ficou em minha memória porque, talvez, tenha sido a última que meu avô contou. Morreria algumas semanas depois.

Falou de um trem de carga que descarrilou e precisou ficar até tarde na estação. Não tinha mais ônibus e passava um pouco da meia-noite quando subiu, a pé, na maior escuridão, a ladeira íngreme para casa. Quase no fim, na frente da pedreira da mina d'água, ouviu uma voz familiar chamando seu nome.

Voltou-se e não viu o rosto. Mas, pelo vulto, reconheceu sua madrinha, morta muitos anos antes de eu nascer. Disse-lhe que tinha um presente para ele, que fosse até a mina e pusesse a mão embaixo do cano pela qual a água brotava das pedras.

Ele foi, em meio à escuridão, pôs as mãos em forma de concha e, pouco segundos depois, uma coisa escorregou do cano. Só conseguiu saber o que era em casa - um anel banhado a ouro, com o seu nome.

- Presente de minha falecida madrinha, nhá Zoraide, uma mulher muito rica e de bastante coração, dona de muitas posses - espalmou a mão direita.

Lembro-me que, por um instante, procurou cumplicidade em meus olhos. Eu rabiscava um papel de pão, sorri de volta e continuei. Velho cínico, safado!

Uns anos antes, ele fora me buscar na escola e, na praça da estação, eu vi tia Araci lhe dar o anel, um abraço demorado e um beijo no rosto. Depois, tia Araci me comprou um sorvete e pediu para eu não contar nada, principalmente à minha mãe.

A mesma tia Araci, que não pôde chorá-lo morto porque minha mãe e minha avó não permitiram que ela, sequer, atravessasse o portão e, ao menos, o pranteasse pela janela da sala de sua casa, onde foi velado.

Um de meus tios herdou este anel. Quase não o usa.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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