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Lins
(*) Diorindo Lopes Júnior

Naquele tempo, a frente da igreja servia de estádio para nossas mais memoráveis pelejas - aquelas que não podiam acontecer nos campinhos de um ou outro time, sem a presença de uma viatura de polícia e uma ambulância. A escadaria do templo virava arquibancada para as (raras) meninas que se atreviam a assistir a nossa costumeira troca de pontapés.

Vez ou outra, o padre aparecia no alto da escada e ficava assistindo, braços cruzados. Um dia, para pasmo geral nosso e da platéia, desceu os degraus de batina e com um apito na mão.

¾ Já que vocês não me deixam mesmo repousar à tarde, a partir de hoje vou arbitrar essa palhaçada que chamam de futebol. Só que vai ser do meu jeito, se não, chamo o Juizado!

Mandou-nos catar uns bambus e fazer traves de verdade, arrumou cal para as marcações da área, parava o jogo para ensinar jogadas diferentes, dava bronca em todo mundo, expulsava e dava penitência a quem falasse palavrão ou entrasse mais pesado e, depois de cada racha, chamava-nos pra conversar, falava de livros, que tínhamos de ler jornais, "para não crescerem burros e serem enganados pelos mandões", que confiássemos cegamente em nossos pais.

Até o dia em que apareceram uns sujeitos mal-encarados numa perua, botaram ele dentro e sumiram para Lins - cidade perto, de gente decente e muito legal, mas, no vulgo de quem sabia das coisas, se referia a um misterioso (e, pelo visto, bastante perigoso) Lugar Incerto e Não Sabido.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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