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Agulhas e linhas
(*) Diorindo Lopes Júnior

Manhã de sábado, mais de meio-dia, os botequineiros de sempre já estavam enrolando as línguas quando ele chegou, de paletó escuro. Cabisbaixo, voltava do enterro de um professor que teve, ainda menino.

Um dia, a classe fazia a baderna de todos os dias, quando o professor interrompeu a aula que tentava ministrar e começou a contar uma fábula. Este meu conhecido perdeu o começo, farreando que ainda estava, mas a história se passava em algum reino distante onde teria uma festa e um costureiro lutava contra o tempo alinhavando a roupa de alguém.

Suas mãos hábeis pareciam apenas segurar a agulha que, sozinha, poderia trilhar os caminhos da roupa, tantas outras vezes percorrera percursos parecidos em corpos mais delicados ou mais engordurados, tanto fazia. Mas a linha, assim como a dona do vestido, só fazia reclamar. Ia muito depressa, que tivesse cuidado ou poderia espetar, estava apertando muito, costurasse mais devagar...

Quando, finalmente, a dona do vestido alinhavado se deu por satisfeita e foi embora para a festa, o costureiro depositou seu instrumento de trabalho no agulheiro, suspirou profundamente e foi descansar.

Pensei que a história acabasse por aí, não a entendi e o questionei. Meu conhecido, naquele tempo, assim também pensou, mas não. Não acabava daquele jeito, não.

¾ Eu me sinto como a agulha desta fábula, abrindo estradas para um punhado de carretéis de linha vagabunda... - o mestre encerrou a espinafração com ironia e voltou à sua aula interrompida.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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