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Valores
e valores
(*) Diorindo Lopes Júnior
Noite
dessas, conversando com um conhecido num bar, passamos a filosofar
sobre a gratidão que devemos à vida.
Casa
própria, carro do ano, emprego duradouro (mesmo vivendo
o temor da demissão a qualquer hora), filhos com saúde,
mulher que o suporta, ele considerou, são seus maiores
valores.
Voltei
para a minha (casa) pensando: depois de anos, comprei uma
(casa, não mulher), faz tempo não tenho emprego
mas trabalho é algo que não me tem faltado (embora
pessimamente remunerado), não fui brindado por Deus
com filhos saudáveis ou não-saudáveis
(apesar dos esforços de muitas moças) e agora
talvez não seja mais tempo, viro avô em vez de
pai, mas isso Ele decide; e também não tenho
uma mulher que tenha de me suportar - por natureza, sou insuportável.
No
cômputo geral de uma rua sem lua, verifiquei: tenho
uma biblioteca com uns poucos milhares de exemplares. Se a
vida não me permitiu mais ter emprego, deu-me trabalho;
se não me permitiu ter uma mulher a me suportar, deu-me
namoradas que deixaram lembranças significativas; se
não tive filhos, me dou até que bem com as crianças
(elas é que não se dão comigo, vivem
me chutando as canelas), carro é algo que não
me faz falta, não gosto de dirigir e o meu, com mais
de 6 anos, se tiver 13 mil quilômetros alguém
o dirigiu para mim; casa própria é legal, mas
a verdadeira casa de um cidadão é sua alma.
Se
me fosse proibido um prato de comida, mas me dessem dois livros,
eu os leria até a inanição irreversível.
Se rir é o melhor remédio de todos os males,
ler é a terapia para todas as curas. Ao mesmo tempo
é ruim.
Lendo,
você começa a raciocinar mais, a mais refletir,
a perceber umas coisas que, se não percebesse, talvez
a vida fosse muito melhor.
Saber-se
enganado, por exemplo. Muitas vezes, eu assim me sinto em
relação a algumas autoridades ditas sérias.
Desconfio que seriedade não combina com autoridade,
embora até rimem entre si.
Trabalho
sempre cada vez mais, ganho cada vez mais menos do que preciso
para me manter, pago mais e mais impostos e mais e mais sou
afrontado com 'novidades' mais e mais terríveis, mais
violentas e mais perniciosas ao já meu combalido bolso
- e ao seu também, prezado(a) leitor(a), estamos juntos
nessa barca.
Lembra-se
de seu empenho em reduzir o consumo elétrico? O que
você ganhou com isso, diminuição no valor
da conta? Ganhou foi um reajuste brutal para compensar as
perdas das empresas com a sua, sua e minha!, economia.
Queria
escrever sobre a validade boa de gostar de ler, mas agora
estou em dúvida, difícil dúvida. Talvez,
a ignorância fosse melhor, a dor mais rápida,
a passagem menos traumática, os valores menos disseminados
como valores.
Por
que escrevo isso?
Depois
da conversa com meu conhecido no bar, voltando a pé
para casa (só bebo em bares próximos, onde não
precise do carro), vi uma criança de rua cheirando
cola de sapataria. Quis ter à mão um livro para
dar a ela, mas, se o tivesse, de que adiantaria?
Amanhã,
outro dia. Quem sabe, um novo pensar.
(*)
Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista, vive em São Paulo, e é
autor de O Sol em Capricórnio (Atual/Saraiva Editora)
e Cesta de 3 (Alis Editora, BH)
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