| A
tunga do Estado
Diogo Mainardi
Querem
tomar meu dinheiro. Não tenho nada contra. Querendo
tomar, tomem. O que me incomoda é que mintam para mim.
Que tentem me enrolar. Outro dia o ministro Palocci declarou
que o Estado gasta mais com os ricos do que com os pobres.
Os jornais acreditaram nele. Publicaram a notícia na
primeira página, acompanhada por entrevistas com especialistas
que corroboraram a teoria do governo. Ninguém contestou
as estatísticas fornecidas pelo ministro. Ninguém
me alertou de que elas eram uma armadilha para tomar meu dinheiro.
Pelos
cálculos paloccianos, eu sou rico. Qualquer um que
ganhe mais de 8.000 reais por ano é considerado rico.
Trata-se de um truque estatístico. Para o governo,
é conveniente ignorar a diferença entre classe
alta e classe média. Porque, se a classe média
é incluída na categoria dos ricos, fica mais
fácil aumentar-lhe os impostos. De acordo com o governo,
eu, sendo rico, recebo mais do Estado do que os pobres. Estranho.
Eu nunca recebi nada do Estado. Nunca recebi segurança.
Nunca recebi transporte. Nunca recebi saúde. Nunca
recebi educação. Paguei tudo do meu próprio
bolso.
O
sofismático ministro Palocci afirmou, por exemplo,
que os ricos recebem do Estado o ensino superior. E que um
universitário brasileiro custa muito mais do que um
universitário europeu. Ele só esqueceu alguns
detalhes. Primeiro: os europeus recebem do Estado não
apenas o ensino superior, mas também o ensino fundamental
e o médio. Segundo: as universidades públicas
européias oferecem vagas a todos os alunos, não
só a uma minoria. Terceiro: os brasileiros ricos conquistam
a maior parte das vagas nas universidades públicas
porque estudam em escolas particulares, muito melhores do
que as escolas que o Estado oferece aos mais pobres.
Outra
ilusão estatística do documento ministerial
foi misturar, no cálculo do gasto social, as aposentadorias
públicas com as privadas. Já há progressividade
na aposentadoria do setor privado. Já há mecanismos
de distribuição de renda. Já há
um confisco brutal por parte do Estado. Os aposentados ricos
do setor privado ganham muito menos do que sua contribuição.
Se os aposentados ricos fossem considerados isoladamente,
sem os aposentados do setor público e sem os aposentados
rurais, seria fácil perceber que eles dão mais
do que recebem. E que as distorções na previdência
não são causadas por eles.
O
ministro Palocci quer aumentar a arrecadação
e diminuir as despesas. Os números divulgados por ele
justificam a cobrança de mensalidades nas universidades
federais. Tudo bem. Concordo. Só que os professores
não podem continuar a ganhar aposentadorias públicas.
Se eu pago mensalidade, é porque a universidade é
privada. Deve ser tratada como tal. O ministro Palocci também
quer diminuir as deduções com gastos em saúde,
nas declarações de imposto de renda. Nenhum
problema. O Estado não precisa me conceder favores.
Eu nunca vou recorrer a um hospital público. Estou
disposto a pagar dobrado para ser atendido num hospital particular.
Só acho um pouco injusto ter de pagar, além
disso, a CPMF, um imposto supostamente destinado à
saúde. Se o Estado abdica do dever de tratar de minha
saúde, deve abdicar também de parte do meu dinheiro.
O
Estado não dá nada aos pobres. E não
dá nada aos ricos. Quem afirma o contrário está
mentindo. A luta de classes no Brasil não é
entre ricos e pobres. É entre o Estado e a sociedade.
fonte: Veja - Publicado em: 22/11/2003
http://server.iea.com.br/pflic/news_making_2/index.php?modulo=mostra_noticia_2&acao=
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