Matar
por Costume
(*) Diorindo Lopes Júnior
Essa
me contou Amálio Limeira, paraibano amigo tem uns trezentos
anos.
Disse que no sertão de sua terra, um velho coronel
resolveu aposentar-se (mas sem abdicar do "controle"
que exerceu a vida toda sobre os destinos de sua gente - era
assim que ele falava: "sua gente") e recolheu-se
à sua propriedade.
Pois estava ele na varanda de sua casa, pitando um cachimbo
de fumo bom, observando os trabalhadores na lida da roça
de milho, quando apareceu um antigo correligionário,
de quem também era compadre. Após o beija-mão
de praxe, o cidadão abancou-se num tamborete e começou
a falar.
- Pois não é, coronel, que me apareceu um sujeitinho
querendo abrir a braguilha logo pra cima de minha Dasdô,
aquela que o senhor mesmo batizou?
- Pois foi?! Não me diga!
- Pois, digo. E digo mais, coronel: não faço
nenhum gosto desse enrabichamento dele com minha menina. Vim
lhe pedir ajuda.
- E o compadre deseja que eu providencie o quê? Uma
coça de rabo-de-tatu no desaforado...
- O senhor escolhe, coronel, minha vontade mesmo é
fazer esse infeliz virar comida de formiga...
- Josias! - coronel berrou para o capataz - Vai ali e me chame
Zé de Elma. Ligeiro.
Dois minutos depois surge um baixinho magrelinho, barba de
dias, encurvado pelo peso de um chapeuzinho de palha e uma
enxada.
- De Elma, meu compadre aqui precisa de um favor: sepultar
um cadáver que quer emprenhar a filha dele, minha afilhada
Dasdô. O nome do desgracento é... Como é
mesmo o nome dele, compadre?
- Chico Agripino. É novo na cidade.
- Ainda não tive o prazer de conhecer, coronel, mas
já não gosto do defunto... - falou o magrelinho.
- Pois faça o serviço ainda hoje, de Elma. E
faz de faca, esse cabra pestilento não deve valer o
preço de um cartucho. Depois do serviço, venha
aqui receber meu agradecimento.
- Pode deixar, coronel. Ainda hoje lhe dou notícias
- e foi saindo no seu passinho miúdo.
- Coronel, o senhor acha mesmo que esse de Elma tem coragem
pra matar alguém...?
- Compadre, coragem, coragem, eu não sei lhe dizer
se ele tem, não. Mas, costume, sim. Costume, ele tem
de muito.
E seguiu pitando seu cachimbo de fumo bom.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio
(Atual/Saraiva Editora, SP) e Cesta de 3 (Alis Editora, BH). |