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A cara e a torta
(*) Diorindo Lopes Júnior

Uma tortada na cara, levada pelo ministro do Trabalho, foi muito pouco. Saiu barato, na minha opinião. Não o machucou, mas o ofendeu - ao menos, espero que ele tenha se sabido ofendido.

Uma tortada na cara!

Não sei se vocês se lembram, mas o atual ministro do Trabalho, este da tortada na cara, é o mesmo ministro da Previdência, o mesmo que mandou pensionistas com mais de 90 anos se recadastrarem e provar que estavam vivos. Não faz muito tempo.

Infelizmente, não tenho mais avós, mas meus pais (80 e 70 anos) estão vivos, e o que eu menos quero para eles, a esta altura de suas vidas, é que sejam humilhados. Como este atual ministro do Trabalho, quando ainda titular da Previdência, fez com milhares de cidadãos que poderiam ser meus pais ou meus avós. Ou os teus pais ou os teus avós, leitor.

Uma tortada na cara, convenhamos, foi pouco.

Esta reforma na Previdência, capitaneada por ele, cheira-me mais a uma Caixa de Pandora: seus efeitos somente serão conhecidos quando esta caixa for aberta. Discurso de campanha é uma coisa, atitudes quando no poder é outra. E muito diferente.

Não conheço os reais motivos que levaram a moça no Ceará a esfregar uma torta na cara do ministro ou se, ao menos, a torta era deliciosa, dessas de se pedir mais um pedaço. Também não compactuo com sua atitude, violenta e inaceitável, porque há maneiras mais civilizadas para protestar e entendo que ela deva ser punida de acordo com a Lei. Mas que esta tortada valeu como um bom tabefe da cara, daqueles bem estalados, que doem mais pelo som do que pelo impacto, isso valeu.

Viva ainda fosse, minha avó consideraria rezar uma novena forte para o moço encontrar seu caminho. Meu avô, menos piedoso, recomendaria logo uma boa surra de rabo-de-tatu, chicote usado antigamente para dar lição em gente à toa. Meu pai, comedido e educado, reprovaria a atitude da moça no Ceará e proporia uma conversa. Já minha mãe, também educada, mas nada comedida, acrescentaria à torta outros ingredientes: uns bons sopapos, além de algumas chulas considerações sobre a reputação e a vida pregressa da inocente mãe do entortado.

Distante da "agressão", reflito sobre o "incidente" e insisto em não aceitá-lo, mas o vejo como um aviso. Da mesma maneira que o "fanatismo atávico" dos simpatizantes governistas os torna tolos, a incredulidade crescente do restante da sociedade pode provocar atitudes mais violentas do que a, até divertida e pastelona, entortada numa cara desatenta.

O aviso ao qual me referi pode ser assim traduzido: a água já subiu além do umbigo, mais um pouco, vai bater no pescoço. Se não fecharem as comportas, a multidão vai precisar nadar para sobreviver.

E aí, receio, talvez não haja mais só tortadas na cara, não.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.saraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br)

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